1 de abril de 2014

Crônica: Tudo que eu tenho


Eu tenho uma casa que falta móveis e vive bagunçada – mesmo que eu passe a madrugada arrumando. Tenho um caderno de anotações na cama que me faz companhia toda noite. Quando eu penso-penso-penso e não entendo, pego a caneta, tiro a tampa com a boca e escrevo. A maior parte das coisas é bobagem. Algumas delas eu deveria tratar em terapia. O resto, meu bem, só alguém que eu ainda não conheço entenderia.
Eu tenho uma penca de amores não resolvidos e pratos para lavar. Mas acho que eu gosto um pouquinho desse sentimento de pendência que ocupa e preenche aquele velho vazio. Meus textos não seriam meus textos sem meus dramas, então, não me desfaço deles tão rápido facilmente. Lidar com a dor é algo que me faz sentir viva. Mesmo que isso quase me mate.
Eu tenho uma família linda, dentes retinhos como eu sempre quis e um monte de história para contar. Meu cabelo cresceu, eu atravessei o oceano algumas vezes e deixei de lado aquela vergonha do meu próprio corpo. Às vezes eu ainda digo bobagens e sou contraditória, guardo umas mágoas bestas, mas Deus me livre de ser sempre tão correta.
Eu tenho uma estante na sala cheia de livros que ainda não li, mas sempre que vou a livraria, não resisto, compro mais três. Acho que é porque eu gosto de saber que existem novos títulos ali, me esperando, para quando eu estiver pronta para cada um deles. Porque eles me entendem e esperam. Porque eles não vão fugir.
Eu tenho um monte de sonhos que sonhei sozinha e agora quero realizar com alguém. Tenho também um monte de emails não lidos, ligações não atendidas e coisas para resolver na rua. Coisas que só dependem de mim, mas eu ando precisando de um tempo. Porque essa pressão tem deixado meu corpo no automático e minha alma no silencioso.
Eu tenho uma gaiola de costelas que protegem o meu coração. É tão frágil. Se eu estiver distraída com os fones, um ônibus pode me atropelar. Ou eu simplesmente posso atravessar a rua e me apaixonar por um cara misterioso que não dá a mínima para o que sinto. Não existe nenhuma garantia. Quando é que eu assinei esse contrato? As letras miúdas diziam que a felicidade é uma questão de ponto de vista, mas eu não sei direito se consigo alcançar.

Crônica da Bruna Vieira
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